Avaliação

Diretor da Globo avalia Liga dos Campeões, Seleção e sugere calendário como 'embarque de avião'

Na segunda parte da entrevista exclusiva ao LANCE!, Fernando Manuel Pinto pondera a transmissão do torneio europeu e sugere novidade na agenda brasileira de jogos

POR: Terra
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Divulgação

Quando não no estádio, o torcedor tenta acompanhar os jogos de futebol por outros meios, como a televisão. Neste caso, o modo como o Grupo Globo se posiciona em relação a diferentes temas é sempre relevante, visto que ele é detentor de jogos dos mais relevantes produtos em exibição no país.

Por isso o LANCE! entrevistou Fernando Manuel Pinto, diretor de direitos esportivos da Organização, que falou sobre Liga dos Campeões da Europa, Seleção Brasileira, Copa América, calendário, a opção por não dizerem o nome de investidores dos clubes nas transmissões, clube-empresa e, claro, o insucesso - até aqui - na negociação para a transmissão dos jogos do Flamengo no Campeonato Carioca. Confira abaixo a segunda parte do bate-papo com o executivo.

O Grupo Globo pretende obter os direitos de transmissão da Champions na licitação de 2021?
A Champions League é um evento fabuloso. O Grupo não se envolveu no processo de aquisição desse ciclo atual por algo que é natural no mundo dos negócios: a priorização de determinados ativos e respeito aos seus custos e desenvolvimento de negócios. É algo a ser avaliado quando se apresentar.

O grupo identifica insatisfação do torcedor/telespectador em relação à Seleção pós-Copa América do Brasil?
As audiências têm sido fabulosas.

Não tem havido quedas consideráveis no período?
Não tenho números aqui, mas a Seleção Brasileira é um produto essencialmente de tv aberta, que acaba atraindo pessoas do futebol e não-futebol, exatamente pela camisa do Brasil, pelo nome do Brasil e pelos astros que ali atuam. Nossos resultados têm sido bem positivos. Tivemos algumas datas, sim, com bons resultados de audiência.

Red Bull Bragantino: segue a opção de falar somente a inicial do nome do investidor?
É um tema recorrente. Existem discussões em andamento a respeito, mas é mais um desses temas em que temos que seguir evoluindo nas discussões internas e externas.

Os clubes, quando conversam com vocês, reivindicam isso? Até por conta de naming rights...
É menos recorrente do que a sua pergunta sugere, e há compreensão dos aspectos comerciais envolvidos. Do valor de uma nomeação. É um tema em negociação, em discussão.

Não há uma contradição entre desejar a valorização do produto e omitir o nome do investidor?
Quando você avalia por um item específico de uma discussão, você pode falar que "aqui você não está me ajudando". Mas não se pode avaliar um acordo ou uma relação por um item, tem que ser pelo conjunto da obra. Neste sentido, acredito que temos, sim, apoiado uma relação com os clubes de maneira construtiva. Mas novamente: tudo que toca aos negócios com clubes é absolutamente relevante aqui na Globo e tem sido tratado desta maneira.

O fim do Esporte Interativo, que transmite jogos em outros canais, facilita as negociações para a Globo?
Acho que foi posterior. Tínhamos um modelo já bastante estabelecido. Concorrência faz parte da dinâmica dos negócios. É saudável, inclusive. Gera necessidade, possibilidade de discussão. A Globo lida com concorrência com respeito e buscando alavancar sua posição através de seus ativos, ferramentas, assim como observamos a concorrência fazendo. A Turner não exibe no EI, mas ela exibe num canal dele, o TNT. Diria que o modelo já estava consolidado.

Por outro lado, a DAZN promete investimentos e compra de direitos de competições nacionais e internacionais. Como avalia a disputa?
Foi o que disse: concorrência é algo que faz parte da dinâmica do negócio. Já lidamos com concorrência em diversas plataformas. O que buscamos é apresentar da melhor forma como podemos para seguir desenvolvendo negócios com parceiros e entregando da melhor forma conteúdo ao nosso público. Natural.

Existe diálogo possível com o Athletico para consolidação do modelo de divisão?
Diálogo o tempo todo.

Inclusive com o Athletico?
O quê? Diálogo o tempo todo. Acabei de comentar aqui. Tem o modelo que eu avalio, da Série A, que foi um grande passo na nossa relação com o futebol brasileiro e para o próprio futebol brasileiro, de estabelecer, pela primeira vez, um formato coletivo, com preocupação com equilíbrio, com viés de meritocracia esportiva e comercial, agora o modelo não é perfeito. Nem seria possível pela maneira como o quadro se apresentava. Já havia acordos individuais aqui ou acolá, a Turner já tinha acordos. No aprimoramento disso podem surgir alternativas e possibilidade. Diálogo sempre aberto. Inclusive com o Athletico.

As cotas de TV do Vasco no Estadual foram dadas como garantia para um empréstimo junto ao banco BMG?
Em respeito aos clubes e às confidencialidades, não comento esses aspectos específicos de clubes. O Vasco tem suas operações financeiras, mas isso é da nossa rotina.

Nota da redação: Havia movimento em São Januário para a obtenção de empréstimo no fim do ano passado. O que se confirmou, porém, até o momento, foram a ampliação do acordo para patrocínio e a antecipação de valores. A finalidade seria a mesma: a quitação de salários atrasados.

Qual a expectativa para a Copa América, em função do calendário deste ano? São 12 rodadas com desfalques.
O calendário, antes mesmo de um debate de futebol ou grupo de mídia comercial, é um item de avaliação esportiva. O nossa papel nessa história é muito mais opinar, contribuir no ponto de vista do que pode valorizar ou não o produto. Tendo esta noção soa estranho quando você conflita, coincide eventos que tenham atributos de valores altos. No mínimo está desperdiçando e dividindo a atenção, a mesma coisa quando se refere às Datas Fifas desfalcando as equipes. Um maior aproveitamento tanto da competição nacional, de clubes, e da internacional, de seleções, quanto esportivo e comercial, o mundo ideal seria ter uma fragmentação para não gerar esse tipo de conflito.O tema do calendário tem sido recorrente, não só o conflito com a Copa América. O modelo de Estaduais, mais Brasileiro. Está na hora de provocar mais esses debates com as entidades esportivas. O Grupo Globo vai lidar com o calendário que se apresentar, independente da avaliação se ficou mais valioso ou não. A resposta que a gente pode dar é comercial, de aquisição ou não aquisição, de investimento maior ou menor, a partir dos efeitos que este calendário acaba gerando. A Globo não é gestora do futebol. É um parceiro comercial relevante, mas não é a gestora.

Supercopa do Brasil, Estadual... mais competições geram mais problema ou soluções?
Na minha avaliação, a Supercopa é um grande acerto da CBF, aposta bacana. Gerar uma data com mata-mata envolvendo duas equipes de ponta. Sobre excesso de jogos, gera transtorno esportivo e comercial. No primeiro campo, você visualiza clubes com muitas dificuldade fazer pré-temporada, se envolver nos campeonatos, conciliar competições. Acompanho muito futebol por diversos motivos, até porque gosto muito, e vejo o caso do Fluminense, que tem várias partidas do Carioca, daí vai pegar um avião, vai jogar um mata-mata no Maranhão (Moto Club, pela primeira fase da Copa do Brasil) e, de lá, já vai para um jogo importantíssimo no interior do Chile. Então temos que avaliar como se faz o melhor processo esportivo, essa sobrecarga causa um efeito. Aliás, isso tem sido discutido no mundo todo. Tenho acompanhado entrevistas fabulosas do (Jurgen) Klopp, e ele também aponta a dificuldade que um clube como Liverpool e os clubes ingleses têm com jogos em profusão. Na área comercial, esse acúmulo causa um desgaste natural da atenção do público, e até mesmo da capacidade dele de dedicar tempo e investir. Temos vistos muitos confrontos que se repetem ao longo do ano no Brasil. Acredito que tem maior valor aquilo que é raro. Novamente, não é nenhuma posição da Globo em busca de mudança, é muito mais uma opinião para colaborar com esse debate sobre o calendário. Acho que é importante ter claro que, antes de ser um produto de mídia, é um campeonato de futebol, tem que funcionar no ponto de vista esportivo. E eu que pergunto e provoco este tipo de debate: está funcionando, de fato?

Quem me conhece e já negociou comigo, sabe que gosto de metáforas e analogias. Eu definiria que este tema do calendário deveria ser tratado como embarque de avião. Você faz primeiro o embarque da competição mais determinante dos pontos de vista esportivo e comercial e, depois, vai fazendo isso na sequência com as outras competições. Chegando ao fim, você vê quais cadeiras estão faltando, que estão a mais, e as ocupa com as datas restantes. E ninguém pode viajar em pé, de forma insegura, capenga, o que, no caso do futebol, podem ser aquelas datas que não geram atenção máxima do torcedor e da mídia, ou até gerando alguém mal posicionado, com jogadores sofrendo fraturas, lesões, o que é tema em debate na Inglaterra, com atletas que se machucaram em período de acúmulo de jogos. Mas lá, ninguém vai mexer na Premier League, na Champions League, na FA Cup... estão avaliando o tamanho da Copa da Liga Inglesa, o terceiro escalão do futebol doméstico.

A abordagem que eu mais defendo é algo que funcione para todos da cadeia de negócios. Recentemente, falei que poderia ser benefício para o calendário se alargassem o Campeonato Brasileiro, que é o de maior destaque no cenário nacional e que faria o torcedor do Sul prestar atenção no Norte, o do Nordeste no Centro-Oeste e, o do Nordeste em tudo... conecta o Brasil, ocupando o ano todo. Pode dar protagonismo o tempo inteiro. E numa composição que pudesse valorizar os Estaduais, que têm atributos inegáveis, envolvem um volume significativo de clubes, são importantes para as rivalidades locais e dão possibilidade de vários times poderem levantar alguma taça durante o ano. Nessa formulação, poderia até durar mais do que hoje, quando fica espremido em dois, três meses com chuva, verão, Carnaval, Páscoa... eventualmente pode ter um torneio que atraia mais o público e dê mais atividade a quem trabalha com o futebol. Eu realmente acredito que é um formato que pode trazer benefícios para todos.

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