Projeto de Soltura

Mãos que salvam: como cativeiros foram utilizados para reintroduzir o Mutum-de-Alagoas na Mata Atlântica

A última vez que o pássaro foi visto no estado data no final dos anos 1970, em Roteiro

POR: Mariane Rodrigues *estagiária
Projeto em cativeiro permitiu a reprodução da espécie, que hoje conta com mais de 200 exemplares da ave.
Parque das Aves

A ação do homem sempre foi um contraventor da preservação ambiental. Mas quando direcionada para o bem da natureza, ela pode trazer resultados inspiradores e um final feliz. É assim que um projeto de reintrodução de uma das aves mais raras do mundo, o Mutum-de-Alagoas da espécie Pauxi Mitu, trará de volta o pássaro ao seu habitat natural, após ser considerado extinto durante anos. A soltura está prevista para ocorrer em setembro deste ano na área que abrange a Usina Utinga Leão, localizada em Rio Largo, Região Metropolitana de Maceió.

O Mutum-de-Alagoas foi visto pela última vez em Alagoas há quase 40 anos. A ave, originária e exclusiva do estado, foi extinta nos anos 1970, após uma série de desmatamento na Mata Atlântica Alagoana, devido a plantações de cana-de-açúcar.

Segundo Indicadores do Desenvolvimento Sustentável do Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levantados em 2015, até o ano de 2012, havia sido desmatado cerca de 90% da Mata Atlântica em Alagoas. Outro fator para extinção do Mutum-de-Alagoas foi a caça predatória, pois sua carne era considerada saborosa.

Poucos alagoanos conhecem este pássaro que pertence somente ao estado e é considerado hoje um dos mais raros do Brasil, assim como a Ararinha-azul, de acordo com o presidente do Instituto de Preservação da Mata Atlântica de Alagoas, Fernando Pinto. Mas sua história traz a esperança de que é possível resgatar espécies que, por pouco, deixaram de existir.

É que no final dos anos de 1970, o dono de um criadouro, Pedro Nardelli, resgatou os três últimos exemplares do pássaro vistos no estado, mais precisamente em Roteiro, no Litoral Sul de Alagoas. Eram duas fêmeas e um macho, que foram levados para um cativeiro no Rio de Janeiro.  

Pedro Nardelli possuía em seu criadouro mais cinco espécimes de machos, além das unidades resgatadas em Alagoas. Para que houvesse a reprodução do Mutum-de-Alagoas, ele cruzou os machos com fêmeas da espécie Mutum-Cavalo. Após os cruzamentos nos anos 1980, ele transferiu 44 exemplares do pássaro para dois criadouros em Minas Gerias, em 1999.  Entre 2008 e 2012, os criadouros mineiros já possuíam 148 espécimes, sendo que destes, 66 mutuns-de-Alagoas puros. (Mais informação acesse aqui).  

Após um longo processo de cruzamentos e planejamentos, que envolveu criadores do Rio de Janeiro e Minas Gerais, e organizações e institutos ambientais, atualmente os cativeiros possuem 233 exemplares do Mutum-de-Alagoas 100% puros. Seis pares deles prontos para serem soltos em território alagoano em setembro de 2017, na área da Usina Leão, em Rio Largo.

Reestruturação de áreas

Foto: Reprodução EPTVMas para que o projeto vingasse mesmo, foi preciso que os órgãos ambientais estaduais mapeassem áreas de, no mínimo, 500 hectares para abrigar os espécimes, conforme exigência do Plano Nacional para a Conservação do  Mutum-de-Alagoas. A área que abrange a Usina Leão possui 900 hectares. A expectativa é de que seis casais da ave sejam soltos na região somente em 2017, com perspectivas de mais solturas para 2018 e 2019.

 “O que estamos fazendo agora é um Plano de Ação Estadual do Mutum-de-Alagoas, com o envolvimento de diversas instituições públicas, privadas e filantrópicas”, afirma Fernando Pinto.

Entre as instituições estaduais envolvidas estão: O Instituto de Proteção da Mata   Atlântica de Alagoas (IPMA-AL), o Batalhão de Polícia Ambiental (BPA), a   Secretaria do Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Alagoas (Semarh), o Instituto do Meio Ambiente (IMA), a Cooperativa de Usineiros, SOS Caatinga, Usina Leão e Federação da Indústria.

Para Fernando Pinto, o projeto trará benefícios não somente ao Mutum-de-Alagoas, como também a outras espécies ameaçadas de extinção e a mata atlântica, visto que é preciso transformar áreas, principalmente do setor sucroalcooleiro, em reservas para as solturas.

“A reintrodução é um programa de nível internacional. Estamos salvando uma espécie que não temos mais na natureza. Alagoas está situado em um dos mais importantes centros de endemismos [uma região em que possui espécies exclusivas dela]. Esse centro abrange a mata Atlântica de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte”, afirma Fernando Pinto.

Segundo o presidente do IPMA, Alagoas possui hoje cerca de 50 espécies de aves ameaçadas de extinção, e mais de 15 espécies endêmicas com riscos de desaparecer da natureza.

“Como o programa faz com que seja obrigada a criação de reservas, estamos garantindo a perpetuidade dessas espécies. Se temos uma reserva de mais de 500 hectares, estamos preservando não somente o Mutum, e sim todas as aves endêmicas existentes, que serão beneficiadas. Além de plantas, répteis, anfíbios, porque haverá um controle e fiscalização”, explica o presidente, que ressalta: “outra coisa interessante, é que pode ser usada tanto uma reserva de 500 hectares ou um grupo de reservas de menos de 500 que estejam interligadas. Qualquer área pequena que transformar em uma área de mais de 500 hectares pode ser área para a soltura”.

Educação Ambiental

O presidente do IPMA explica que um plano estadual de soltura do Mutum-de-Alagoas foi criado para elaborar ações de educação, fiscalização e monitoramento em Alagoas e, mais especificamente, nas comunidades próximas aos locais de soltura.

As ações serão efetuadas antes da soltura, durante e depois, com um monitoramento rigoroso do local, que terá o apoio do Ministério Público Estadual, com seu núcleo ambiental, o Instituto do Meio Ambiente e o Batalhão Ambiental. Em Março, uma reunião será realizada para discutir como vai ocorrer a soltura e a fiscalização.

Dos anos 70, quando foi capturado, até hoje, o projeto de reintrodução do Mutum-de-Alagoas teve a participação do Museu de História Natural da Universidade de São Paulo, do Departamento de Genética da Universidade Federal de São Carlos, dos criadouros científicos de Poços de Caldas, do Insituto Pauxi Mitu, em São Paulo, do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade e o envolvimento do especialista e responsável pelo início do projeto, Pedro Nardelli.

“O que eu queria ressaltar é que esse é o melhor projeto de preservação e proteção de uma espécie na América Latina. E o mais importante é que existe um grupo multidisciplinar de universidades, ONGs, empresários, todos se envolvendo, participando para realizar”, conclui o presidente, Fernando Pinto.

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