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Custos hospitalares na pandemia: uma breve avaliação

Em um bom português, o consumo aumenta de forma generalizada, os preços estão incontroláveis e o faturamento despenca.

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O consumo aumenta de forma generalizada, os preços estão incontroláveis e o faturamento despenca.
Reprodução/Saud

Há bastante tempo, a inflação está controlada no Brasil. Ela apresenta indicadores quase suíços, entretanto, neste instante, esconde uma grave realidade: o aumento vertiginoso dos preços com insumos e serviços utilizados pelos hospitais, sejam eles públicos ou privados.

Esta é uma realidade que preocupa, sobremaneira, quem está à frente da gestão hospitalar, especialmente quando se deparara (pasme!) com aumentos dos preços de alguns itens, majorados em mais de 6.000%. Estes produtos são necessários, sobretudo, para manter as pessoas vivas, evoluindo para alta hospitalar, ou cuidar dos ambientes dentro do protocolo sanitário, com novas e importantes exigências, entre outras tantas razões ou motivos.

Na outra ponta, a da captação de recursos, o cenário coloca para baixo o faturamento, uma vez que estão suspensas as atividades eletivas, ou seja, boa parte das consultas e cirurgias, exames e outros atendimentos que geram dinheiro para o caixa do Hospital não acontecem, além do fato de que o Decreto-Lei nº 13.992 permitiu a cobrança pela média do faturamento, de forma linear, sem qualquer previsibilidade para o movimento de alta que o mercado faz diariamente nos suprimentos.

Agora, uma outra situação: o aumento real no consumo dos produtos – mais insumos para as tarefas - apresenta uma média de 35%. Isso nos permite dizer que certos itens aumentaram seu consumo em mais de 70%, a exemplo dos diversos álcoois; e outros em torno de 50%, como os gases medicinais. Já o serviço de estacionamento permanece no mesmo valor.

Em um bom português, o consumo aumenta de forma generalizada, os preços estão incontroláveis e o faturamento despenca.

O Hospital Veredas é uma empresa de serviços, onde os recursos humanos são o seu principal patrimônio para acolher, cuidar e curar as pessoas que buscam saúde e bem-estar. Em contrapartida, a Covid-19 e seus sintomas afastaram mais de uma centena de colaboradores, entre os cerca de 1.500 profissionais da nossa equipe multidisciplinar.

Para nós, além de acompanhar diariamente os funcionários afastados, essa situação gera ainda mais despesas. Afinal, precisamos contratar substitutos para que as atividades no Hospital Veredas sejam mantidas dentro do que manda as nossas boas práticas de Medicina.

O leitor já percebeu que esta é uma equação perversa e que aponta para graves problemas que enfrentamos desde já, e outros tantos que haveremos de enfrentar de maneira ainda mais aguda. Tudo isso é oriundo de uma situação que ninguém, por mais preparado que fosse, estava pronto a dar respostas de forma eficaz e assertiva.

A doença, fruto deste novo Coronavírus, ainda de difícil compreensão e resolutividade, segundo a ciência, expõe os hospitais à queda de seus recursos financeiros por um lado, e os obrigam a assumir despesas em alta e sem controle por outro. Isso tem levado algumas instituições ao desespero, apontando para a redução e corte de salários, convenhamos, uma brutal injustiça, quando o correto seria o aumento e o pagamento de gratificações a todos os colaboradores pelo relevante serviço que prestam.

Sem grandes pretensões acadêmicas, nosso propósito com este artigo é o de apresentar um breve relato alicerçado em fatos e na experiência diária com os desafios que este momento apresenta às pessoas no mundo inteiro; e de modo diferenciado a quem, como se diz, está no olho do furacão.

Confiamos que o que apresentamos aqui, a ponta do iceberg, sirva de alerta a todos os envolvidos com a saúde brasileira. E no intuito de corroborar os fatos, observe abaixo um pouco da evolução dos preços de fármacos e insumos a que fizemos referência. Você, nosso caro leitor, claramente poderá comprovar que a despeito das leis de mercado, há uma grande possibilidade de instabilidade generalizada no setor, contra a qual e desde já, insurgimo-nos a não prevaricar.

Confira a evolução de alguns itens, considerando que o primeiro valor é referente a novembro de 2019, e o segundo, maio de 2020:

Máscara simples: custava R$0,08, agora R$3,50;

Máscara N95: custava R$3,50, agora R$24,30;

Álcool em gel (5 litros): custava R$52,00, agora R$120,00;

Omeprazol: custava R$5,00, agora R$17,00;

Cefalotina: custava R$7,75, agora R$15,00;

Cefepima: custava R$15,00, agora R$55,00;

Luva de procedimentos: custava R$0,21, agora R$0,65;

Enoxaparina: custava R$18,73, agora R$26,00;

Propofol: custava R$7,66, agora R$37,00;

Sonda de aspiração traqueal: custava R$51,03, agora R$112,50.

Pense, caro leitor. E se isso estivesse ocorrendo em sua casa com o seu orçamento doméstico, sem aviso e nem previsão?

Fica aqui a nossa reflexão. Obrigado por sua leitura.

Colaboraram com este artigo: Dr. Edgar Antunes Neto*, Dr. Adeilson Loureiro*, Dr. Rodrigo Bomfim*, Luiz Anhanguera** e Luiz Dantas***.

() Membros da direção do Hospital Veredas, () Gerente Administrativo do Hospital Veredas e (**) Publicitário, jornalista e professor da Ufal.

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